Fotossíntese
(...)E entre estreias e extinções
ou antes
fez o armário
com que um camisa carmim
nunca pudesse ser
apenas uma camisa carmim...
(Sopro Clandestino, 2025)
---Aconteceu há muitos anos, aconteceu ontem ou não aconteceu. E se até mesmo no afã de ter sido inventado; se pudesse, quem sabe, ter sido roubado pelo sonambulismo de um ouvido alerta a monótonas intenções, a justa previsão seria ainda praticamente impraticável.
O sol se guarda quase distante, as perguntas dos potes de geleia amargaram e as liberei uma a uma. A espera seria pior, poderia nascer outra árvore de raiz redobrada e estou cansado de regar o crescimento que aprendeu a cutucar o céu.
O domingo se alimenta insaciável, está agora espalhado pelo quarto. Agora, acaricia os gatos. Do outro lado da cama. Em cima do lustre. Atrás da porta. Pois, corre atrás de mim. E mais rápido. Mais rápido ainda. Segue faminto e pede justificativas. Pede protocolos. Vereditos. Crucifixos. Assinaturas. E eu queria somente esquecer o som da minha voz ou poder perder a memória por um dia inteiro. Hibernar a abstração da minha mente e seguir, nas tais 24 horas, devoto a cutucar feridas do chão. Até alisar, realinhar, retificar específica montanha, calombo ou encosta.
Aprendi a nadar muito cedo, mas desconheço a magia de preparar ostras ou camarões ou o jeito correto de abrir outras cascas, bem mais duras. Quando deixei a última vez o consultório, prometi que os abismos seriam fronteiras opcionais. E por motivo simples, o cansaço de desabar disparado em mesma velocidade, na agonia parceira de idêntica quilometragem. Agora, reflito sobre as sendas e as sombras. Há os excetos, há os meios, as noites tingem as frestas e ensinam as formigas a tecerem como aranhas. E elas sentenciam o descobrimento nas tardes de primavera, mas nem sempre. Elas sentenciam e morrem na disposição deste sentido fabuloso, mas verossímil.
Desta existência, não sei o que digo. Não sei a quem digo. Hoje, não me vejo pronto. Numa noite, o som estava bem alto e eu fui levado até você. A tua língua ricocheteou e me atingiu o lado esquerdo da face, onde os meus dentes já se afiavam. Eu me espantei com a sua reação corrosiva, mas antes de eu poder te abraçar, você já tinha fugido vermelha. E eu encarei as suas fissuras lindas, os buracos imensos por onde a dor se infiltrava e, logo, eu fugi também. Fugi de você, mas bem mais de mim. Não houve propósito e nem maldade. Não houve adendos, apenas sequelas. Levo-as em altivez e prefiro explicar ao mundo que faço parte dos que se importam.
Esperei, no dia seguinte, a ligação fortuita de alguém que pudesse estilhaçar vidros de motivo ao meu lado. O silêncio veio como um recado de um futuro sabido e grisalho. Um futuro que já se desenha numa estrada demarcada por pintas e rugas explicadas. Pelas manchas que distraem o pouso da esperança, as cicatrizes que revelam o seu carbono-14. E nada se sustenta inexplicável. Está posta a rota. O silêncio é agudo nas baías de cá. Os meninos insistem em peladas e a juventude amamenta a coloração da areia que lembra os seus dias. Era um agosto e também já foi um março todo, quando vociferaram a tua exposta diferença. Uma delas. A que a menina de antes não viu. A que ela não quis conhecer. Ou, quem sabe, a diferença que deu a ela ainda mais poder. O poder de poder.
E você se viu sozinho e minúsculo.
E ela se viu sozinha e minúscula.
E vocês dois, com nervuras parecidas, nunca mais se cruzaram.
Lucas Galati
✨PS: Gostou do texto? Gosta do conteúdo dos os_andantes? Já pensou em ajudar essa iniciativa? Dê uma olhada nos planos pagos!
❗SOPRO CLANDESTINO CHEGOU❗
O meu segundo livro de poesia está pronto. Uma obra que assumo ter muito orgulho e que o resultado final realmente ficou surpreendente. Mais uma vez, preciso agradecer a Editora Comala que aceitou encarar, ao meu lado, esse projeto tão especial e que soube captar todos os meus desejos, até aqueles que nem eu mesmo tinha tanta certeza.
Agradecer também aos amigos, familiares e seguidores que participaram da campanha de pré-venda e tornaram esse sonho possível.
Bom, sem mais delongas… é só clicar na imagem agora e comprar já o seu livro! Corre lá!
😜Ah! E só para lembrar que você pode adquirir o meu primeiro livro: VERDE, VERMELHO E CINZA. Basta dar um clique na imagem:
❗OUTRAS EDIÇÕES:
✍️ A newsletter dos Andantes tem o modelo gratuito e o modelo pago. É importante destacar que no modelo pago, você vai contar com textos mais complexos e aprofundados sobre um determinado tema, dicas interessantes das mais diferentes ordens e para todos os estilos. Porém, o que é ainda o mais valioso para o presente autor é o texto em si. Seja a poesia, a crítica, a crônica, o conto…
A principal preocupação será sempre com uma construção textual criativa e inesperada. Costumo enviar uma nova edição da newsletter de 5 em 5 dias. Não deixe de arriscar os seus primeiros passos!
👀E se quiser me acompanhar nas redes virtuais:








