AZUL TURVO
Esta cova em que estás Com palmos medida É a conta menor Que tiraste em vida É de bom tamanho Nem largo nem fundo É a parte que te cabe Deste latifúndio Não é cova grande É cova medida É a terra que querias Ver dividida É uma cova grande Para teu pouco defunto Mas estarás mais ancho Que estavas no mundo É uma cova grande Para teu defunto parco Porém mais que no mundo Te sentirás largo É uma cova grande Para tua carne pouca Mas à terra dada Não se abre a boca (JOÃO CABRAL DE MELO NETO)
Avançaremos. Seguiremos adiante. Bem depois do morro da culpa. Afinal, se gotejar substantivo sumo, o verbo feito crava na carne, a primeira a ser extinta. Conto, portanto, a história de mais um Severino. E como Severino, o rigor nomeado do labor estampa a tragédia que, desta vez, veio ensopada de tempestuosa ventania.
Aos seus cuidados, a piscina que nunca nadou. Que jamais nadaria. Agia conforme foi ensinado. Preparava, sem preparo, a mistura química que deveria resultar num azul exato. Azul piscina. Três anos completos de carteira que, aberta, repetia: manobrista. A mentira paroxítona que Severino manobrava todos os dias.
Poderia ser homem de poucas palavras ou um rebelde, fervoroso contador de peixes, amante das anedotas rasas. Os chefes não saberiam. Não arriscavam mergulho por essas águas. De Severino, importava a força do aperto de mão e que, de pé, o homem estivesse antes da noite terminar acesa.
Então as mãos ásperas mediam o calibre da força para erguer portões de metal de uma academia que ninguém o via. Alguns ainda brincavam com a sua maneira severina de desejar boa noite, bom dia. Outros repetiam a pressa e pulavam, precisos, as correntes que demarcavam as vagas para os carros que Severino protegia. As chaves, quase sempre arremessadas, terminavam enfileiradas por ordem de chegada. Uma forma de não se perder, de justificar a sua valia.
E quando o relógio apontava no mesmo horário cheio, Severino partia exato para o laboratório que lhe deram modesta autonomia. A análise do balde que cultivava a mistura era prevista de longe, por fotos tortas de celular. Também batalhava para focar o azul que revelaria a combinação da receita a ser feita naquele dia. Os chefes davam o veredito e Severino agia.
Não foi diferente quando a piscina amanheceu turva. Severino mesmo duvidou de qual seria a fórmula do cardápio para aquele dia. Desde tão pouca idade, tinha aprendido que quando a água os pés escondia, era no mais raso que permaneceria. Como de costume, enviou as fotos e recebeu as diretrizes. Severino traçou o combinado e posicionou o balde bem perto da borda da piscina. E antes de despejar de vez o conteúdo, estruturou uma concha com as mãos e olhou de perto a água secreta… e assassina.
E se, ali, ela lhe contasse o azul da sua cura?
Em poucos segundos, os alunos asfixiavam com respiros envenenados. O ambiente tóxico tinha que ser torrencialmente esvaziado. Enquanto a água cuspia os seus aprendizes, Severino retirava o balde ordenado e o colocava longe de vista. Severino se perguntava. Severino se respondia. Em mensagens desesperadas, conta a sequência trêmula dos eventos aos seus chefes protegidos e secos em telas de lítio. Esperava algum comando. Alguma regra exclusiva em direção à próxima saída.
Severino só paralisou quando releu: PACIÊNCIA! O comando não viria. Novamente, Severino se perguntava. Novamente, Severino se respondia. E não demorou para soarem as ambulâncias. Não demorou para fechar o cálculo de todos os internados. Não demorou para confirmar o azul turvo de uma tragédia fatalmente prevista.
No dia seguinte, Severino não abriu os portões da academia. E estava em casa quando soube da morte de uma das suas chaves. Quase sempre a segunda da sua fila. Estava em casa quando o chefe desconhecido pediu para que ele fugisse. Uma ordem para um Severino culpado e ele era apenas o Severino. O Severino que nunca ninguém via. E vieram os soares, não de ambulâncias. E veio uma advogada. E vieram os microfones perigosos da mídia. E ouviram a sua voz. E ouviram a sua versão. E o seu nome foi dito, repetidas vezes, numa tragédia apelidada de severina.
Lucas Galati
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