DESVIRGINEMOS!
Pouco conheço de escola de samba, mas sou um expert no quesito: imprensa. Um jurado com uma década e meia de atuação e um repertório extenso de prazeres e penares em redações brasileiras que já me renderia um belo livro de 200 páginas e mais algumas tantas confissões altamente venenosas. Ao final da leitura, a obra se implodiria para evitar futuras úlceras ou estados catatônicos de ansiedade extrema.
Eu já fui crédulo como o jovem que se debruçou da janela para avaliar, com absoluta atenção e uma dose extra de exibicionismo, o andar de todas as carruagens que percorriam o Anhembi. Hoje, eu já me sinto como um tio descolado que executa as ordens dadas com perfeição, mas na mesa de bar ainda abraça a avenida que recarrega a bateria do saudoso espírito revolucionário.
A dita e aclamada Grande Imprensa não saberia, nem se quisesse, alterar a rota adotada e isso se dá por um buquê de razões nem tão cheirosas assim. O jornalismo se tornou uma coroa de pétalas fúnebres. Amarelas, rosas, brancas… todas expurgam o mal-me-quer de sua frágil composição. Podemos arrancar a primeira e lembrar, por exemplo, do quanto a promessa das redes sociais caiu pelo esgoto e o horizonte ninguém mais vê pelo vício ignorante e fixo na tela do celular. São pílulas de informação, entendeu? O assunto é chato demais! Mergulhos são resquícios afundados da velha guarda e catarses, precisa ver se cabe na agenda.
A massa sôfrega de jornalistas convulsiona numa tentativa explícita de sobrevivência, de últimos respiros ou de, pelo menos, tentar fazer uma vírgula de diferença no mar sangrento e factual da notícia. Não à toa e há pouco, o The Washington Post, um dos principais veículos da imprensa norte-americana, demitiu um terço da equipe. Enquanto isso, no reino fantástico do LinkedIn, fadas e faunos correm soltos atingindo cumes profissionais e erguendo a esperança em bravos atos de amor à empresa. Duas ou uma pétala arrancada?
Daí em diante, a gente disseca o que já foi semente com a total dependência do capital e dos acordos engravatados que fazem do jornalismo hoje muito mais um espaço interessante de business do que, por exemplo, um laboratório para a produção de uma grande reportagem feita graças ao fomento a investigação e a qualificação dos seus profissionais. Vocês riram por aí também?
Muitos então acabam por aqui. Numa semiclandestinidade, caçando centavos para mostrar o potencial da sua escrita e com os seus livros publicados debaixo do braço na esperança que um clique aconteça. Por falar em clique, abri o celular hoje pela manhã e o algoritmo ou os neurônios custosos da inteligência artificial entenderam que eu queria saber um pouco mais sobre Virgínia.
Por favor, eu preciso deixar claro que foram TODOS, vou repetir: TODOS OS VEÍCULOS ENTENDIDOS COMO PARTE DA GRANDE MÍDIA me ofereceram alguma manchete sobre essa garota de 26 anos que, até onde eu sei, explora a vida dela e das filhas na Internet.
Não vou entrar no mérito da sua atuação, se ela faz ou não algo de útil, se ela merece ou não estar onde está, se o spray dela cheira a calêndula e nem se a maquiagem dela é a prova d’água. É que a enxurrada sobre Virgínia foi jogada em tamanha violência que, portanto, eu acredito ter a chance de dar devida resposta — pelo menos dentro deste singelo espaço virtual. Frente a este desejo, reforço que serão apenas quereres, muitos e muitos deles sabidamente idealizados.
Eu quero ainda acreditar que, mesmo a Virgínia sendo traduzida hoje como a voz do empresariado, da bufunfa, do patrocínio imediato, do faz-me-rir, do bem-me-quer, o jornalismo brasileiro possa urgentemente se desVIRGINAR. Que os jornalistas possam lembrar que, antes da fantasia vermelha e pesada que a influenciadora vestia, existe a beleza de uma festa ampla e diversa feita por muitas e muitas escolas, por milhares de pessoas e que é totalmente brasileira. Existe a necessidade de falar sobre quem são os verdadeiros responsáveis por essa magia que acontece no Anhembi e na Marquês de Sapucaí todos os anos, falar sobre as origens, falar em igual proporção e da mesma maneira de todas as rainhas e madrinhas que compõe o Carnaval em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Eu quero ainda acreditar que o jornalismo possa abraçar, assim como Virgínia foi evidentemente abraçada pela imprensa, figuras da comunidade, que nasceram dentro delas e que vivem a relevância nacional do Carnaval no Brasil, além de entregar tudo nos minutos de avenida. Eu quero acreditar que o jornalismo conte como esse espetáculo se ergue, que o jornalismo mostre o passado dessa festa, quais são as marcas que podem estender os seus camarotes nos sambódromos e o trabalho engenhoso das costureiras que fazem as fantasias. Eu quero mais reportagens sobre o preparo descomunal que envolve um evento como esse.
Eu quero também acreditar que o Carnaval no Brasil não é um chamativo acaso e que ele também deve abarcar aqueles que não têm igual holofote. Do que não está fantasiado com penas de faisão e brilhantes dourados. Quero ler reportagens sobre a efervescência dos blocos em São Paulo, em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro. Como eles são resilientes e quantos se envolvem em lutas para garantir a saída pelas ruas das capitais. Quero ouvir sobre essas dificuldades, saber como se dá a negociação, sobre a penosa falta de patrocínio.
E, enfim, quero poder contar também.
Contar para a imprensa que, em 2026, um bloco formado por mulheres, um bloco que ensina mulheres a tocarem instrumentos desde o início, que este bloco chamado Pagu, este bloco que percorreu o centro de São Paulo nesta terça-feira em tamanha alegria completou dez anos de existência.





E que este bloco, em 2026, quase não saiu. Quase não saiu por falta de estímulo, de vontade, de patrocínio.
Um bloco que, mediante todas as adversidades e desinteresses, entregou bem mais do que Virgínia.
Lucas Galati
✨PS: Gostou do texto? Gosta do conteúdo dos os_andantes? Já pensou em ajudar essa iniciativa? Dê uma olhada nos planos pagos!
❗SOPRO CLANDESTINO CHEGOU❗
O meu segundo livro de poesia está pronto. Uma obra que assumo ter muito orgulho e que o resultado final realmente ficou surpreendente. Mais uma vez, preciso agradecer a Editora Comala que aceitou encarar, ao meu lado, esse projeto tão especial e que soube captar todos os meus desejos, até aqueles que nem eu mesmo tinha tanta certeza.
Agradecer também aos amigos, familiares e seguidores que participaram da campanha de pré-venda e tornaram esse sonho possível.
Bom, sem mais delongas… é só clicar na imagem agora e comprar já o seu livro! Corre lá!
😜Ah! E só para lembrar que você pode adquirir o meu primeiro livro: VERDE, VERMELHO E CINZA. Basta dar um clique na imagem:
❗OUTRAS EDIÇÕES:
✍️ A newsletter dos Andantes tem o modelo gratuito e o modelo pago. É importante destacar que no modelo pago, você vai contar com textos mais complexos e aprofundados sobre um determinado tema, dicas interessantes das mais diferentes ordens e para todos os estilos. Porém, o que é ainda o mais valioso para o presente autor é o texto em si. Seja a poesia, a crítica, a crônica, o conto…
A principal preocupação será sempre com uma construção textual criativa e inesperada. Costumo enviar uma nova edição da newsletter de 5 em 5 dias. Não deixe de arriscar os seus primeiros passos!
👀E se quiser me acompanhar nas redes virtuais:










