Folia inesperada
Escrevo esta edição em êxtase e estafa. Não consigo empreender os movimentos sadios dos dois pés, as solas estão em fogo e as minhas panturrilhas parecem inchadas. Foi excesso de folia. Afinal, como pontuou sabidamente Marina Sena no seu excelente último álbum:
Hoje, você pode me esquecer! É Carnaval no Brasil!
E, neste ano, por obras capciosas de Dionísio ou Baco, eu fui presenteado com ingressos para camarotes no Sambódromo do Anhembi. Acompanhei de muito perto o desfile das escolas de samba de São Paulo. Digamos que a surpresa fevereira calhou tão bem, milimetricamente calculada, já que Carnaval é um dos poucos feriados que eu realmente não trabalho. As poucas vantagens de ser um jornalista da madrugada. Os desfiles entram na programação da emissora no horário do meu jornal e eu parto, deixando um abraço fervoroso e beijos carinhosos aos colegas que estão sempre três passos na frente com suas agendas humanas de trabalho, chances de ouro e até movimentações meteóricas de carreira.
O planejamento inicial para o feriado alongado era, basicamente, conseguir adiantar a quantidade de trabalho que tenho dos cursos que faço. Queria ter tentado uma praia, mas como de costume, a grana está curta e nenhum convite pintou no horizonte. No mais, um ou outro bloco que eu decidiria na hora, já que tenho amigos que são amantes e frequentadores assíduos. Não sou fã de mergulhar na multidão, mas um defensor e tanto do folião estar no meio da rua, da cidade nesta época ser tomada pelos blocos e pelo colorido das fantasias que deixam a gente ser feliz, mesmo quando a gente menos acredita.




A última vez que eu desfilei numa escola de samba, a X-9 paulistana estava no grupo especial e eu não tinha sequer pêlos no sovaco. Eu era a perfeita criança viada. Desde menino, sempre gostei de dançar e costumava chamar a atenção nas festas de clube com um samba aprendido por osmose. Aliás, arrisco dizer que se tivesse pais mais desconstruídos e corajosos, poderia ter sido alguém maiúsculo nesse universo da dança. Digo a mesma coisa e os culpa da mesma forma sobre as artes cênicas, design e o meu sonhado curso de História, que ficou somente para a história.
De volta à avenida, a lembrança até escapa dos olhos. A câmera em mim e eu sambando livremente, como se estivesse sendo reconhecido por holofotes merecidos. Sambava com certeza, como se fosse um frequentador da escola, o Lucas, mirim da X-9 paulistana. E todo o preparo era divertido. A família inteira desfilava. O meu pai e as minhas tias, antes de chegarem na avenida, entornavam copos e mais copos de whisky. A minha mãe também era levada por uma felicidade estrangeira, que ela não entendia direito. E, ao fim, eu acho que realmente se tratava disso. Naquela expectativa, os problemas e as brigas deixavam de existir. Eles podiam ser felizes antes, durante e depois dos minutos de avenida. Assim, eu era feliz por consequência.
Receber de presente esses ingressos foi como fechar os olhos e conseguir tocar no costeiro com penas vermelhas que o meu pai vestia, foi relembrar do hino que fez a X-9 paulistana campeã num dos anos que desfilamos, foi aquela sensação de exposição boa, com sentido e por tempo determinado.
Como já disse, eu não tenho histórico e prática em camarotes e afins. Não sou chamado nem para eventos de literatura, imagine pisar de volta no Sambódromo? Com esses ingressos dados, eu pude acessar uma avenida particular que me levou diretamente para o tamanho alegórico da admiração que tinha pelo meu pai. Eu, muitas vezes, a esqueço. Até de propósito. Talvez, para sofrer menos com a sua morte. Nos miolos de uma criança viada, a gente acredita em qualquer migalha. E eu acreditei que aquele pai lindo, fantasiado de ave, liberto numa avenida alegre, poderia, daqui alguns anos, me aceitar como um homem gay.
Eu acreditei que o meu pai saberia largar a gravata e abraçar o artista que ele era.
Eu acreditei que percalços não deveriam existir e que a vida seria reta, a ser seguida numa mesma direção e sempre cheia de luz, como deve ser um Sambódromo.
Lucas Galati
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❗SOPRO CLANDESTINO CHEGOU❗
O meu segundo livro de poesia está pronto. Uma obra que assumo ter muito orgulho e que o resultado final realmente ficou surpreendente. Mais uma vez, preciso agradecer a Editora Comala que aceitou encarar, ao meu lado, esse projeto tão especial e que soube captar todos os meus desejos, até aqueles que nem eu mesmo tinha tanta certeza.
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