Raio de rio
Como será ter o desprendimento de Caetano? O sossego de se deixar ser surpreendido por gritos entusiasmados e a correria de fundo, ambos parte da moldura do flagra feito pelo celular sempre preparado da esposa que celebra a vitória de um Grammy como um mortal celebraria. Na sequência, o Olimpo desce ao chão e, com um sorriso humano, Caê revela as boas novas numa ligação para a irmã Bethânia, que também recebe a notícia com surpresa.
Ao espectador, a chance de idealizar as mais infantes e absurdas perspectivas. Já assumo a minha culpa, mas com educada discrição. Será que o feito, recebido com choros teatrais e ameaças de desmaio pelos maiores da música mainstream internacional, é interpretado como só mais um troféu na estante? Será que preferem os reconhecimentos brasileiros aos norte-americanos? Ou simplesmente cansaram das homenagens e validações em geral? Sei lá, a fadiga nessa altura deve fazer parte da travessia. Imagino se assemelhar a experiência de ouvir um estádio lotado gritar o seu nome semana sim, semana não. No começo, nem uma agulha. Hoje, nem se despindo das calças, o rosto mais envergonha.
Fact é ser uma delícia a cena toda. Em tempos tenebrosos nas idealizadas terras hegemônicas, o latido do país-colônia se faz música aos ouvidos do tio mais fascista da família. Um vídeo desses então se transforma no tesouro ao final do arco-íris, numa ópera refinada que transmite orgulho do mais velho ao mais novo, um hino encantado e acessível. A sensação que dá é que basta mais uma pedrinha na lagoa para o mundo virar de vez do avesso. Sobre a busca de entendimento do que defende e se defende essa suposta e estranha direita, a psicologia me ensinou a piscar os olhos e saber avistar nitidamente a arrogância, o egoísmo, o amor ao privado e mais alguns piolhos que escorrem pelos cérebros em agonia do nosso Centrão e da ala medonha da política extremada.
Mas há de raiar o dia. Sempre há de raiar o dia. Não entendeu? Nikolas capiroto te explica. Aos feridos, a pena sincera, mas minha barriga doeu as risadas. Agora, depois de ácidos segundos, vem o barulho ensurdecedor que precisa se repetir mais algumas vezes para encher as nossas represas vazias. Enquanto isso, os nossos rios secam sem projeto, assassinados debaixo do asfalto, mas soube em algorítmica enxurrada que, infelizmente, me consome/atormenta todos os dias que lá no Bixiga, centro de SP, o projeto de um novo parque vai trazer rios e risos de volta. Eu sonho e estudo para poder conhecer esse dia, ainda com saúde. A derrubada do concreto e a reintrodução dos meandros dos rios, característicos de São Paulo. Tem adolescente que nem sabe disso. Bom, tem adolescente que não sabe onde fica a Estação da Luz ou a 25 de Março. Contarei então o segredo que os governantes escondem: São Paulo já foi bem, BEM, B-E-M diferente. Uma legítima terra da garoa que sabia respeitar o fluxo enigmático dos seus longos rios e, portanto, aproveitava navegante bem desse luxo.
A Folha de São Paulo fez jornalismo de verdade e foi às ruas mostrar a quantidade de projeto bacana que a nossa arquitetura pensante defende para São Paulo. Projetos que nós, moradores, deveríamos ter na ponta da língua, que deveríamos poder cobrar, exigir a implementação imediata, mas entra ano e sai ano e as autoridades parecem escolher a dedo o que há de pior para a cidade, respeitando as diretrizes impostas pela peçonhenta especulação imobiliária e planos diretores que não planejam nada de benéfico aos seus citadinos. Espaços feitos exclusivamente para os paulistanos passarem, assim como eu, assim como você passa todos os dias na nossa corriqueira navegação virtual, no caminho do Uber para casa, no próximo ônibus que sair da estação. Sei lá! Se você ainda não é Caetano, penso que desejamos, em alguma instância, de alguma forma, permanecer, ter feito alguma diferença, encontrado algum propósito nas idas e vindas dessa bola azul.
Talvez, essa raiz deva ser mais funda e gostar de beber somente água de rio.
Lucas Galati
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❗SOPRO CLANDESTINO CHEGOU:
O meu segundo livro de poesia está pronto. Uma obra que assumo ter muito orgulho e que o resultado final realmente ficou surpreendente. Mais uma vez, preciso agradecer a Editora Comala que aceitou encarar, ao meu lado, esse projeto tão especial e que soube captar todos os meus desejos, até aqueles que nem eu mesmo tinha tanta certeza.
Agradecer também aos amigos, familiares e seguidores que participaram da campanha de pré-venda e tornaram esse sonho possível.
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