CONFESSO...
Emprestei as orelhas.
Uma consequência da rígida educação e de tentar encontrar, dentro de uma família disfuncional, alguma serventia. Não me arrependo de quase nada, muito menos dos cotonetes gastos para manter a minha suposta habilidade em devida manutenção. Serviu. Ajudei. E sei tacitamente da minha importância, mesmo ela não tendo sido verbalizada ao longo dos anos de labuta inconsciente. Era uma irmã que caminhava assustada do outro lado do mundo e me pedia socorro e dicas de como sobreviver aos copos destilados e as palavras de ferro. Uma mãe que não encontrava saída para um amor odioso e tinha deixado de se abraçar como mulher. Era um pai que, deprimido, marcava o lado do sofá com o peso de uma existência insuportável. E a minha vez, que nunca chegou dentro do mínimo espaço que habitava uma casa armada até os dentes, descobriu vazão na palavra escrita.
E, talvez, por isso a felicidade seja um terreno demente até hoje. Não sei até que ponto a arte encontra forças de germinar de panoramas encantados, visíveis e estáveis. Eu nunca os tive e escrevia, no começo, para escutar as dezenas ou centenas de aspectos pantanosos que desconhecia. Que eu não queria enfrentar de maneira alguma. E, mesmo infante ou despreparado, ainda ouvia. Ouvia por amor. Por ter investido na ideia de que seria possível conjurar um ideal de família, se os meus ouvidos estivessem sintonizados e então numa frequência exata, eu finalmente poderia abrir o bocão e alfinetar um conselho certo que alteraria uma cadeia conhecida e habitual de eventos dramáticos. Em uma frase, eu realmente achava que ordenaria as letras de uma palavra longa, como sentimento. Ou, quem sabe, fazer com que aquelas pessoas entendessem a importância de explorar tristezas e raivas: finalmente ditas.
A juventude e as suas pretensões exibicionistas. Jovens devem ser exibidos. Ainda bem que são. Eu enfrentei uma sopa de tormentos por realmente ter certeza de que daria conta da barra e de que a minha saliva seria motriz, catalisadora, essencial. Sabemos que o final nem sempre é olímpico. E, no meu caso, realmente não foi. Aprendi que ouvir é de suma importância e venerável num mundo neurótico e, muitas vezes, desprezível. No entanto, especificamente, nas arestas do meu quadrado, a língua ainda deveria agitar esforço e soltar a sua dimensão.
Agora, nem sempre o que temos a dizer soará como poesia. Nem sempre poderei entregar ramalhetes de margaridas e promessas de parceria eterna. Há dor. Há mágoas. Há passados que insistem o presente. E sei que foi com muito esforço que deixei o papel e enfrentei a ousadia de chefes abusivos, de amigos indiferentes, namorados infiéis, de familiares frágeis, de situações que eu deveria pisar fundo e repetir que não aceitaria. Não mais. Não desta vez.
E estou certo de que os erros virão. Eles são justos e parte da trajetória de quem se enxerga protagonista. Eu ouço e eu falo, na mesma medida. Agrado e desagrado em dimensões semelhantes. Não estou mais disposto a engolir constelações inteiras para que a estabilidade seja mantida. Que a terra trema e que eu não passe por leviano, fugaz ou insolente. Que eu seja franco comigo e que na noite seguinte, o sintoma não adoeça febril no meu suado travesseiro.
Volto em breve, andantes! Muita coisa por aqui…
Lucas Galati
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