Quantos Oscar de miopia?
Esse lance de estudar a Cultura com C maiúsculo é tão minúsculo. É que quanto mais eu leio, menos eu entendo. Menos eu me aproprio e o conceito não te espera, basta revisitar os cadernos e ele voltou a se espraiar.
A aula que eu menos gostei até agora é de um professor bem novo, bem “galera” que faz dos encontros virtuais uma sessão de punheta intelectual, que eu critico hoje e já descia a lenha nos meus memoráveis tempos puquianos. O tal Danilo é um excelente e ativo embromador. A aula deveria começar às 8 do sábado, mas ele só começa às 10 para que aqueles que não conseguiram ler os textos durante a semana, se dediquem a leitura nessas duas horas antes do encontro. No entanto, a tarefa é sabidamente impossível, uma vez que a quantidade considerável de indicações extrapola e muito esse prazo dado. Seria mais venerável dizer, por exemplo, que ele não consegue acordar tão cedo, que não gosta e prefere começar às 10.
Infelizmente, assim que o start é dado uma empreitada torturante também se inicia sobre as mil e uma experiências supostamente culturais que a sala, com quase setenta alunos, vivenciou e se convenceu a dividir após a leitura de algum pesquisador da área. Para ajudar no sacrifício, ele anota os nomes e dá pontos extras para os que participam da discussão e abrem a câmera durante as aulas a distância. Certamente, eu já aceitei que perderei os intangíveis pontos.
Nada contra a escuta ativa, mas considero arriscado fazer da cultura ensinada um girassol de discursos e relatos pessoais. E isso só ocorre por conta dessa generalização maldita do conceito e mais duas gotas de preguiça do amado curador dantesco. Horas e horas num sábado para amassar Raymond Williams ou qualquer outro e no lugar reescrever um folhetim fervoroso, um manifesto revolucionário sobre o poder de uma vida pública e empírica. Aos meus 20 anos, certamente, acharia um máximo o approach. Hoje, assim que vejo que a estratégia vai se repetir, desligo e vou fazer feira ou ler um livro qualquer.
Na segunda aula, no período da tarde, a professora, apesar de não conseguir empreender movimentações básicas no espaço desafiador da Internet, o que atrasa demais o andamento da aula virtual, assim que engata a terceira, ela tem sucesso em aproximar a Arte Contemporânea da gente. Há uma linha de pensamento, uma construção que começou com a semana de 22 e que evoluiu trazendo importantes nomes atuais da área e que se dedicam ao experimento artístico com corpo e alma.
E a Cultura maiúscula há quantas anda?
Eu, se fosse docente, arriscaria a óbvia interlocução da aula 1 com a aula 2. Basta pensar em como se deu aquele movimento cultural em 1922 e, sei lá, trazer para o tapete vermelho do Oscar, quem sabe? Quem pôde ter o passe livre? Quem faz parte do metiê exclusivo? Quantos não fazem? O que esses dois eventos carregam de semelhanças? Qual deles foi ou é mais elitista? Qual o Chanel que se desprende deste tipo de cultura? Os milhões, os bilhões que se movimentam na estreia de um filme hollywoodiano? O lobby que se faz para que um quadro entre num museu importante? A narrativa mercantil que se instaura na construção de um museu, por si só? O quanto demanda para que um filme brasileiro se equilibre entre os candidatos para receber a famosa estatueta de ouro? E, honestamente, qual a legenda para isso tudo? Um Oscar fala mesmo de cultura brasileira?
Eu ainda fico com a semana de 22, mesmo tão complexa, mesmo tão problemática. É que a Cultura caminha meio que junto com o jogo capcioso da narrativa. E, claro, celebro um possível momento de um acordar do nosso cinema dentro do hall da hegemonia mundial. Quem sabe? Ainda mais depois de quatro anos absurdos de bolsonarismo. Celebro Fernanda, celebro Wagner, celebro. Mas eu ainda fico mais feliz em conseguir ter visto Teatro da Vertigem neste último final de semana. De ter conhecido e amado o Espaço Elza Soares, no centro de SP. De saber a importância que é aquele público, ali, presente. De uma peça que, efetivamente, retrata o Brasil c o n t e m p o r â n e o. Eu fico mais feliz em ver um orçamento diferente para a pasta. Uma ministra que eu acredito. De vender mais um livro meu. De alimentar uma cultura que não é distante, que é acessível e que deve existir até mesmo num relato particular e animado.
Esse lance de estudar a Cultura com C maiúsculo deve ser ainda mais minúsculo. Deixar se perder dentro do termo. Do terno. Do tratado que se desenha quando o político abre o bocão. E que, apesar de partir de um ponto de vista, de uma perspectiva, que a Cultura possa ser transversal, como um amálgama, a cola na cola do sapato, o ponto que liga as cadeiras de um espetáculo e também as pastas dos Ministérios. Que a Cultura seja a razão dos microscópicos e de palmas estraladas. Reorganize as bactérias e as sociedades. Que um Oscar ou um Kikito possam se exibir na mesma estante. Que a Cultura não adormeça apenas dentro de um folhetim idealista, mas seja o destaque de um jornal diário, de um programa nacional. Que pela Cultura a gente possa se empenhar, se emocionar, se refazer, se dedicar e sobreviver. Que a Cultura não seja somente pergunta culta. Tampouco resposta clara. Que a Cultura se preencha na questão, não na cópia e nem na mesmice das minhas primeiras aulas de sábado.
PS: O Agente Secreto já é vitorioso! Um bom Oscar para todos!
Lucas Galati
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O meu segundo livro de poesia está pronto. Uma obra que assumo ter muito orgulho e que o resultado final realmente ficou surpreendente. Mais uma vez, preciso agradecer a Editora Comala que aceitou encarar, ao meu lado, esse projeto tão especial e que soube captar todos os meus desejos, até aqueles que nem eu mesmo tinha tanta certeza.
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