A hora H
ou 109 passantes
Eu ouvi o ruído e posso ter seguido um pavio de ideia que se estendeu, incendiário, bem na minha frente e não na frente dos outros 108 passantes que passavam em passos pacíficos perto da praça mais pomposa do perímetro. E daí foi júbilo, sem maestria, a garrafa acontecida e dentro dela, a água restante que nem sede mais mataria. Joguei com convicção, joguei com força mediana e direção calculada. A garrafa bateu, então, num pedaço solto de banco que, sem utilidade, servia como morada para mosquitos famintos. Um deles pode ter alçado voo logo depois da colisão e servido de comida para uma rã-pimenta que já reconhecia a área em questão como ideal para banquetes noturnos. A garrafa ainda quicou mais três vezes até descansar em frente ao gradeado que delimitava a circunferência de um parquinho enferrujado e nada convidativo. Uma vontade repentina de aliviar a minha bexiga fez com que eu desse uma volta sorrateira numa árvore de tronco grosso e desaguasse espumoso, mas atento a qualquer movimentação estrangeira e que tivesse intenção suficiente para resgatar as centenas de traumas urinários da época de colégio. Por volta das dez da noite, a chuva veio com força e trovões pentearam elétricos as planícies de nuvens que se redobravam em mais e mais camadas a cada hora e meia. Uma senhora, de 93 anos, se assustava a cada estrondo vindo de fora e, temerosa, acabava dando ouvidos para a tempestade de dentro, bem mais violenta, bem mais obscura. A mesma senhora pensava em ligar para a filha e desaguar infortúnios, mas desistia por causa do relógio de madeira que a encarava e desnudava as chances de uma possível insônia futura. Um jovem, sem guarda-chuva e triste, decidiu correr por um parque para esquecer o tamanho absurdo do seu coração sincopado e para fugir do temporal arrítmico. Ele está cansado, mas não se importa com o entorno e nem com o tempo que levaria para chegar em casa. Distraído, ele se assusta ao chutar a garrafa que eu tinha jogado mais cedo. Uma atitude rebelde, talvez inconsciente. A garrafa de plástico dispara com o impulso do pé juvenil e termina a travessia bem ao lado de um bueiro que poderia oferecer um destino ao que já tinha perdido a sua função, virado lixo, descarte, inutilidade, sobra, resíduo.
Depois de pouco mais de duas horas, um vento mais assoprado arrepiou a janela do quarto de uma criança que, adormecida, não deu qualquer importância, mas fez a mãe despertar de um início de pesadelo. A mãe, sonolenta, foi até a cozinha para aliviar a secura da garganta e, na volta, entrou no quarto da criança e fechou a janela com delicadeza, sem brechas, sem ousadias. Tentou se concentrar para ver se o chão estava molhado, mas desistiu de ir atrás de um pano. A negligência não provocaria efeitos ou tragédias no dia seguinte. O vento que espiou o quarto da criança foi também o responsável por alimentar o bueiro com a minha garrafa e o restante de água que dentro dela adormecia. A garrafa impulsionada despencou pela escuridão subterrânea, dentro de compartimentos e tubulações que poucos conheciam, sem mapas nacionalmente reconhecidos ou terreno de pouso, um destino. O bueiro engoliu a minha garrafa a seco e do lado de fora, a chuva se mantinha urgente, constante. Quando amanheceu, duas ratazanas atravessaram rapidamente metros do parque parcialmente inundado e, curiosas, decidiram se aventurar na abertura do mesmo bueiro que tinha ingerido, anteriormente, a minha garrafa. Uma delas tropeçou num pedregulho molhado que parecia permitir estabilidade e despencou pela tubulação, o que possibilitou a queda final do meu pertence reciclável, que tinha se agarrado a um cano mais fino e enfim pôde desistir até experimentar os tormentos de um curso de água recheado e altamente violento. A ratazana, que colidiu com a minha garrafa, conseguiu vencer o afogamento e descansar numa porção de terra e musgo, antes de definir uma possível sequência de fuga. A travessia plástica se deu entre mergulhos e bonanças até que uma língua de água se estendesse livre, perto de uma rodovia movimentada a quilômetros do parque. A minha garrafa aguerrida despencou num matagal que contornava um anel rodoviário, no exato momento em que um caminhoneiro alterava a marcha e espremia a visão para definir a melhor rota de entrega de colchões, de uma marca regular, vindos de outro estado. O veículo era antigo e, no momento da curva acentuada, um prego usado para prender a malha que cobria toda a extensão da mercadoria se desprendeu e pipocou pela estrada até bater no plástico da minha garrafa, que já demonstrava justificado cansaço e apatia.
Eu ouvi o ruído e posso ter seguido um pavio de ideia que se estendeu, incendiário, bem na minha frente e não na frente dos outros 108 passantes que passavam em passos pacíficos perto da praça mais pomposa do perímetro.
Mas eu não segui.
Lucas Galati
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