Quarenta e cinco em cada perna é terminar a maratona sem ninguém para colocar defeito. Do lado da minha mãe, tenho uma avó com 95. Do lado do meu pai, a longevidade não vai tão longe assim. Fico em dúvida qual lado da laranja a Dona Morte vai escolher para adoçar a vida. Dizem na boca pequena que pessoas altas morrem bem mais cedo. Um entrave bem paulistano das periferias estarem longe demais do centro. A ciência não comprova nada e desconfia de tudo. Valioso mesmo é não penar e nem sentir dor. Laura Cardoso e Glória Menezes se despediram em belíssimo estilo deste mundo de cabeça para baixo. 98, uma. A outra 91. Vidas bonitas. Não se arrastaram até o último respiro. O corpo simplesmente desligou. Carreiras de renome, dezenas e mais dezenas de novelas, filmes, peças de teatro. Partem sem dívidas, sem puxar o pé de ninguém. Melhor ainda: deixando um bom dim dim na conta de quem fica.
Ouvi hoje um trecho de uma entrevista, onde Laura Cardoso enfatiza para o eterno Abujamra no Provocações da TV Cultura que é uma responsabilidade do autor ser inteligente, se manter antenado, conectado, culto, contemporâneo. No depoimento, Laura explica ser um ofício que pede a constante revisitação e muita leitura. Cada vez mais, o meu apego e saudosismo pelas gerações que vieram bem antes das novas tecnologias, da IA, dos infernais algoritmos. Não havia uma medida estabelecida para talento. Não havia obrigatoriedades a serem cumpridas para assegurar um determinado nível de fama. Sem dúvidas que um espaço de destaque numa novela das nove nunca foi e nunca será um posto para todos. Mesmo com mudanças evidentes daqueles supostamente aptos ao cargo, noto que a chance, cada vez mais, se distancia das prerrogativas que Laura esperava na hora de se analisar um profissional. É notório e nada surpreendente que as seleções respeitem bem mais hoje número de seguidores, relevância virtual, conexão e engajamento com a base existente nessas plataformas. Quando não, somente isso.
Se Laura enfrentava dificuldades num set ou no palco, o mesmo se espalha como um vírus carniceiro pelas mais diversas áreas do conhecimento humano. Não pretendo e nem quero fazer deste espaço, uma colmeia sensacionalista, mas sou obrigado, a partir da colocação desta atriz imensa, a dizer que o mesmo se repete, por exemplo, no jornalismo. A rapidez e a urgência são traduzidas na produção de imediatismos, imprecisões e bolhas de material conciso, ralo. A novidade pouco brota das redações. Há hoje e em maior número uma legião de jornalistas que sobreviveu, adotando e ainda se vangloriando pelo título de técnico da informação. Ser jornalista fica para os poucos que podem competir por uma novela das nove. Não é para todos. Aliás, hoje é quase para ninguém.
A literatura não fica a muitos quilômetros de distância. Quanto que o nome de uma editora fala bem mais do que o conteúdo do livro publicado? Já se perguntou o que faz e o que precisa fazer um escritor famoso hoje? E aquele que quer ser também reverenciado? Será que é somente a qualidade da escrita que conta na hora de assinar o contrato? A produção sequencial de livros sempre maravilhosos? Seguidores também agregam na contagem? Contatos? Background? Família? Queria estar julgando pela capa, mas as minhas aventuras sempre se deram na sola de muita propriedade, corroeram de dentro para fora. Antes eu apenas não dizia, me calava, desistia das futuras dores de cabeça. Uma vez, uma amiga me perguntou como que eu não desisto? Respondi que eu me melhoro nisso tudo. O texto amadurece, evolui. Conheço bem das minhas quedas, dos meus fracassos, mas há boas surpresas pelo caminho.
No último domingo, encontrei com a namorada de uma grande amiga. Assim que me viu, fez questão de dizer que o Sopro Clandestino, o meu segundo livro, foi rapidamente lido e que a leitura a ajudou num momento bem difícil, que ela chegou até a levar o livro para o divã. Ouvi aquilo com tanto carinho. Desde a publicação no ano passado, nunca tinha recebido um comentário desse calibre. Nunca tive nem a firmeza de que os mais próximos chegaram até o fim das 84 páginas da obra. Agradeci com uma sinceridade emocionada. Não venho desta escola. Não tenho costume com muitos elogios. Só para vocês terem uma ideia, os meus amigos mais próximos nunca. Vou repetir: NUNCA! repostaram, compartilharam, ajudaram de qualquer forma a impulsionar o material que eu produzo há anos nos Andantes. Muito menos uma estrofe ou trecho de um livro meu ou, talvez, a venda para um conhecido. Imagino que a poesia é vista como uma vergonha que só eu devo passar.
Mal sabem eles que eu ainda escolho o mesmo e longevo caminho.
Lucas Galati
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