Culpemos as Kardashians, os funkeiros e novamente a Virgínia. Culpemos o “badalo” de Narcisa e algum outro refrão de sua arqui-inimiga, não menos poderosa, Val Marchiori. Hello, não era isso? Culpemos as mansões exibidas do Architectural Digest e as barbies douradas de Selling Sunset. Culpemos, finalmente e enfim, as malditas ditas: redes sociais.
Se a polêmica já envolveu o cordão de ouro e o Camaro amarelo, ninguém poderia supor a Nárnia vigente. Na época, a música de sucesso se simplificava no estouro de um único hit. Não que hoje seja muito diferente, mas era assombrosa a quantidade de meninos bilionários que tiravam fotos com medalhas cravadas no peito e joias chamativas nos dedos. A mídia encontrava oportunidade e aplaudia de pé os números, o alcance generalizado e introduzia a fórceps reportagens e séries sobre os fenômenos musicais, que de música nada conheciam. Que nunca realmente fizeram - my opinion. Era o autotune, um refrão grudento, a parceria com um DJ estourado, um exército de mulheres centauros ao lado, a gravação do clipe, e uma produtora que nem precisava ser de grande porte.
Suponho que o estouro tão comum antes exige um pouco mais hoje. Que ficou bem mais complexo conquistar multidões vindo do nada e com apenas um sucesso na manga. A própria Anitta, que tem muita grana, influência, estratégia e talento para se manter evidente, foi uma gigante no ramo dos hits. Somente neste ano, 2026, decidiu apostar num álbum, propriamente dito, com começo, meio e fim. Sendo ela reconhecida por não dar ponto sem nó, certamente a nova fase se valeu de uma profunda análise do mercado.
No entanto, Equilibrium já foi tema dessa newsletter e não vejo motivo para reforçar o feito magnífico da dona-da-porra-toda. Fantástico é refletir que o tempo passou, anos e mais anos, que os mercados mudaram, as preferências e os gostos do brasileiro, as estações perderam força, os tigres-de-bengala chegaram perto de deixar a extinção e mesmo assim, a ostentação segue em alta. Se não mais repaginando um hit do funk ou do sertanejo, como uma avalanche de vídeos de meninas milio e bilionárias que apostam nas plataformas para explorar ao máximo a atmosfera onírica do: poder tudo.
A elite decidiu descer do salto e também brincar com os algoritmos de Zuckerberg. Se um dos supostos da plataforma é se dizer democrática, os e as magnatas devem poder entrar na roda e encontrar o seu público catalisador. Não só descobrem, como passam a ter verdadeiros defensores. Justiceiros da elite! Como se ela precisasse disso. Apesar de crítico ferrenho das redes e um potencial marxista, também sofro por perder o tempo arrastando a estupidez de vídeos inúteis. Corto bem antes de completar o sabor de uma hora. Bem antes de começar a babar na tela. Agora, sou também parte do meu século e, mesmo com reações e irritações conscientes, assumo a minha navegação insolente.
Nesta turbulenta travessia, fui solapado com o que nunca imaginei ser possível e nem socialmente aceito. A filha e a mãe, ambas plastificadas e ambas cafonas, descem do seu apartamento de cristal, ao lado do shopping Iguatemi, em São Paulo e emplacam o vídeo dizendo como é a vida morando dentro de um universo de compras e de luxo. Houve também o encontro inesquecível com a bilionária brasileira mostrando os andares da mansão no Líbano e como o papai gosta de filmá-la despretensiosamente. Zuck não deixa de me atualizar sobre as novidades de um casal teen que, da última vez, suportei escutar o marido ruivo, que se diz castanho, dizer que casal que sai demais com amigos não se gosta e não é casal de verdade. Que o certo é sempre cultivar a intimidade e o afeto apenas entre o homem e a mulher. Não indico aos pensantes, mas os vídeos do gênio seguem com uma seleção de aulas de misoginia e de machismo de dar vontade de puxar todos os fios de cabelos de uma vez só. A esposa, que entendi ser irmã de uma estrela de dorama, já me ensinou a fazer miojo e compartilhou as facilidades de morar numa casa com elevador dentro.
E se os ramos venenosos dessa real irrealidade também assombram por aí, não custa cuspir um comentário ou outro. Eu arrisco. Até que me faz bem. Da última vez, me xingaram de invejoso. Eu aceitei a crítica e parti para o próximo vídeo.
Lucas Galati
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