Queria mesmo era discorrer detalhadamente sobre uma compra de 600 reais de supermercado não ter preenchido nem metade da minha geladeira. O restante do meu VR foi embora e as sacolas que pavimentaram o caminho de volta pesaram muito mais no meu arrependimento, do que nos meus ombros e costas. Eu me senti imediatamente extorquido, arrisquei uma piada sem graça com a caixa mau-humorada e, enquanto me preparava para as futuras e íngremes subidas até a minha casa, alimentava o bolo do meu âmago com uma tristeza corrosiva. A indigestão por ter gastado com comida de verdade. De ter esgotado o meu único cartão positivo com a reunião de dez sacolas, no máximo.
Sou o resultado de uma família deveras irritante neste quesito. Chegam a beijar o insuportável. Mãe, irmã, tias, primos e primas que defendem ditatorialmente um ideal intangível de alimentação saudável. Os ingredientes orgânicos a qualquer custo e em todas as refeições, a farinha que deve ser qualquer outra, menos a de trigo. Farinha de uva, de aveia, de linhaça, de amêndoa. A defesa cega e inconveniente de que os netos, os afilhados, os filhos, a filha se alimente exclusivamente da carne do boi feliz, da galinha detentora do ovo santo, da mandioca e do inhame vindos da produção do agricultor que trabalha para a Bela Gil, para a Paola Carosella, de que o tofu e o salmão façam parte da mesa diária, de que as frutas seja colhidas por freiras carmelitas e lavadas em água santa, antes da ingestão.
Quem dera se a loucura se mantivesse protegida na alimentação, mas transborda, por exemplo, para a área dos cosméticos. A pasta deve ser cinza e a mais cara da gôndola. Sem corante, sem gosto, sem espuma, sem pasta. O sabonete só o de crisântemos por não ter a substância com nome impronunciável e vista como nociva em algum artigo duvidoso e o desodorante não pode ser de marca conhecida, todos cancerígenos. Deve ser em pedra, com cheiro de enxofre e duração mínima de seis meses.
Aprendi a ouvir calado e concordar sem maiores intercorrências. É bem, bem, bem mais fácil. Estranhamente, eu fui uma criança que cresceu com muito refrigerante, com Ioiô Cream(antiga Nutella), bolacha doce de todos os tipos, Nescau, Toddy com muito açúcar. Tive acesso, por sorte, ao que é visto hoje como material radioativo, toxina e que os pequenos que ainda recebem a permissão do consumo dessas perversidades são filhos de pais desnaturados. Até posso concordar de que o exagero fazia parte da minha época. A ingestão das ditas porcarias era frequente demais, de que poderia existir um controle mais inteligente, uma preocupação maior com a alimentação infantil. Agora, eu trago o relato comovente de alguém que consumiu por décadas absurdas negligências e os meus últimos exames estavam excelentes.
Certamente eu não falo e não conheço nada sobre a posição de pais. Não cultivo a menor pretensão de ter um filho e nem acho ter estrutura psicológica para arcar com esse papel atormentador. Imagino, portanto, que o esperado é você deixar de existir para dar o melhor ao seu rebento. É assim que a sociedade funciona e espera que as famílias funcionem. É que enquanto eu me arriscava pelos corredores do supermercado e, ainda mais depois quando recebi o valor da minha compra e o que eu abraçava de sacolas, ficou claro o preço da tal comida de verdade.
Fico feliz pelas conquistas daqueles que eu amo e que conseguem dar aos seus respectivos o que há de melhor. Agora, eu me amo mais do que amo qualquer outra pessoa nessa vida e não consigo me abastecer do melhor. Aliás, nem perto disso. Digo mais. Eu já me tornei, dentro da minha família, o boca de latrina, o que ainda se arrisca a ingerir tamanhas atrocidades, o que não tem mais jeito. Acho estranho, porém, eles nunca terem parado pra pensar (ou pra digerir) de que comida fala muito mais de grana e de acesso do que de preferências ou regimes saudáveis.
Lucas Galati
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