Sagitariamente falando...
Quando eu desatarraxar a cabeça e me restar inanimado em cima de onde a gente se evapora. A linha imã oras, outroras. Respiro em tranquilidade larga, mas não tenho preferência dita, nada a ser revelado e sei bem mais sobre joelhos e as esquinas que sujam a minha saliva mostarda e sobre as cantigas, sobre mentidas maestrias, malícias e estico as noites que se arrepiam no sabor e uma janela também me espia só o lado de dentro. Assisto ao meu adormecer em distância protegida, mas com atenção para não caber no cerne de um verbo eficaz, mas estilhaçado. Não estou pronto. Não estou. Despeço os dias de quem escolheu se fazer moldura. Nunca fui corpo, nunca, por isso rege o tamanho estranhar. Entranhar e (se)mentes.
Há quem abrevie Queer de Guadagnino como um dispensável quadro de Romero Britto, eu, enfim, discordo convicto, analogia odiosa feita para emplacar cliques ou impressionar na roda de conversa. E aos que meterem a língua para jorrar veneno fundo de glândula anura na beleza de Call me by your name ou na tensão que enxagua a quadra de tênis de Rivais, conheço rios e rezas bravas. Cuidado! É do que se sobrevive o ambiente resistente das letras e os editoriais em conserva da mídia impressa nem me deixam mais mentir. O brasão da família despenteado pelas redes (as)sociais ainda norteia lustroso o passo avesso das próximas cavalgadas e em busca das mesmas árvores vermelhas, das mesmíssimas perseguições e a cegueira histérica é bem mais charmosa e costuma convencer o revoltoso empresariado.
Toda bicha deve me entender. Há dias mais cinzas que precisamos consumir enredo gay, produção gay, diretor gay. Há evidente melhora no horizonte, o cenário até floriu, mas o deserto de antes nunca desistiu das suas extensões irrefreáveis. Foi por isso que assinei Mubi e também pela qualidade terrível do que andava vendo nos outros streamings. O consumo exagerado de produções lastimáveis fazia os meus termos serem inconscientemente alterados e desnorteado, caminhava agarrado ao: Não foi desta vez. Cansei, amados. Estou exausto de consumir lixo, de dar chance ao que sei que vai me desapontar latrinas. Certamente, o Mubi não é a receita para o sucesso, mas qualquer tipo de curadoria que não se resuma a estrelinhas pintadas fico mais animado.
No último fim de semana, escolhi os rumos da solidão e me aventurei numa sequência de três longas com a temática colorida. O primeiro deles encontrei dando sopa no Youtube. Do Começo ao Fim, filme de 2009, de Aluizio Abranches. Eu tinha assistido a obra no cinema, quando ainda caminhava amedrontado pela minha sexualidade. Na época, perigosamente apaixonado, a película serviu e muito para me ajudar num insistente processo de aglutinação de amargura, além de despender rabiscos bem mais fortes na certeza de que a minha hora de amar jamais chegaria. Aos novinhos que se aventuram por aqui, peço que entendam que o amor declarado entre dois meios-irmãos foi um soco no estômago da nossa amada sociedade tradicional brasileira e era uma delícia ver casais heterossexuais deixarem a sala de cinema, inconformados com aquele delicioso absurdo.
Na sequência, parti para Queer que se fez, como já dito, uma surpresa delirante. O suor mexicano escorrendo pelo peito de Daniel Craig e as cenas do amor abreviado entre ele e Starkey me fizeram assumir a navegação alcoólica-sinestésica e extremamente convincente a qual o diretor sustentou sua proposta. Sem contar a dança performática das personagens principais depois do consumo da rara yagé que tomou conta do meu quarto todo e da minha cabeça nos dias seguintes. Terminei com o enredo apaixonante de Matthias e Maxime, do diretor Xavier Dolan que me encanta desde a estreia de Amores Imaginários, em 2010. Um jeito delicioso de colocar um ponto final e partir para os braços musculosos de Orfeu.
No dia seguinte, acordei com a minha lombar em frangalhos por tantas horas rolando de lá para cá na cama. Não tenho televisão em casa e sou obrigado a encontrar um encaixe satisfatório do meu corpo com a tela do computador. Quase nunca dá certo, mas estava bem contente. Há tempos que não me dedicava exclusivamente à sétima arte. Há tempos que não me permitia um dia todo sozinho. Eu e os meus gatos. Há tempos que não me via refletido em obras de arte, que as narrativas batiam e voltavam, sem qualquer turbulência, sem barulho, sem efervescência. Percebi que me propus um tratamento de choque e uma bomba atômica de sentires foi acionada. Isso costuma ser um perigo nessa minha meia vida equina. Sagitariamente falando, deu vontade de galopar para bem longe, deu vontade de olhar para as estrelas, deu vontade de unir os pontos e adivinhar novos e belos destinos.
Lucas Galati
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