Gigante azul
Há a grande migração de gnus que existe todos os anos na Tanzânia. A maior rede contínua de formigas estende-se por mais de 6.000 quilômetros ao longo da costa da Itália até a Espanha. Em Bremer Bay, no oeste australiano, as baleias jubartes pulam voluntariamente e o espetáculo pode ser acompanhado, sem custo, de cima de um morro sem nome. Canang sari é uma oferenda feita pelos balineses para agradecer aos deuses e pedir o equilíbrio entre o bem e o mal. A Cratera de Chicxulub, de 200 km de diâmetro, está soterrada debaixo da Península de Iucatã, no México. Há cerca de 66 milhões de anos, o asteroide com mais de 9,6 km de largura colidiu com a América Central pré-histórica e exterminou com os dinossauros. Com a extinção, os mamíferos dominaram os quatro cantos do planeta e encontraram condições para evoluir.
E, logo, se a vida humana se deu como um mero acaso, uma sequência de eventos inesperados e absurdos, os répteis gigantes eram os meus preferidos sobre o papel e, desde o berço, causam o mesmo espanto. Spielberg é o culpado pelo ineditismo e em 1994, a cena histórica de um braquiossauro esfomeado em busca das folhas mais altas desafiou a nossa compreensão ainda imatura para a tecnologia cinematográfica e ativou arrepios que insistem até hoje.
O Rei Leão até me ensinou a tracejar antílopes e calaus, baleias entendo como seres fantásticos e não abro para debates. Elas já serviram de inspiração para boas poesias e se há o sagrado no mundo, suponho que ele adotaria determinado corpo azul.
O que já esteve na ponta do lápis narrou a fantasia que, felizmente, me assombrou até a minha chata e instável juventude. O menino que eu fui jamais teria condições de ganhar os seus grisalhos na celeridade e secura que a infância decidiu se abreviar hoje. Demorei com intenção, com desejo de demorar, pude estender ao máximo uma espécie de receptáculo que me protegia das obrigações e dos amadurecimentos esperados. Muitos dizem ter sido excesso de assepsia, um despreparo que provocou os tantos terremotos na minha vida adulta. Estranhamente, eu tenho ciência suficiente para dizer que a escolha foi sábia e foi minha. Os meus pais não tiveram nada com isso. Eu apostava na fantasia e não sei se, necessariamente, como uma fuga. Afinal, a dosada mistura também me encantava em mesma proporção. Ou, talvez, eu sabia decorar com facilidade os mandamentos, os encantamentos, os feitiços para sugar o fantástico de todos os poros da História com H maiúsculo. E eu me esbanjava.
Houve vezes em que os meus desenhos serviram de justificativa para animar os bonecos em narrativas exageradas. Eu esticava as horas do relógio com cabanas e fortes erguidos de primeira. Sabia repetir os diálogos das animações e dos clássicos da Disney. Na praia, as pernas se juntavam numa nadadeira potente e fingidas madeixas vermelhas. Num parque, eu me escondia entre as árvores e caçava pequenos insetos que serviriam para curar algum unicórnio ferido. Dentro do avião, eu era um agente secreto que precisava desativar uma bomba. Na casa da minha avó, eu me tornava um déspota, um cientista maluco, um chef especializado em receitas intragáveis ou um lutador dentro de um torneio mortal.
E se caso o cenário, por alguma razão, me cansasse, eu partia para revistas temáticas que me permitiam idealizar abobalhado o planeta há milhões de anos. Com o fim do Cretáceo, eu abria outra edição que me levava até o Egito Antigo. Dali, a minha mãe brinca que ela tinha que realmente me pescar para fora a fórceps. Pedidos insistentes para que eu encontrasse forças e o caminho de volta para a realidade. Antes disso, eu tinha que cumprir com os meus papiros e hieróglifos, com os rituais de retirada de órgãos das múmias, com os nomes das deusas que mais me instigavam e saber explicar aos meus colegas de sala a importância sagrada do Rio Nilo.
Fantasia e realidade davam as mãos e eu nunca gostei das rupturas. Tive um terreno espaçoso para andar pelas nuvens e provar o gosto dos raios poderosos de um deus que aparecia, implacável, somente nos dias de chuva.
As minhas melhores descobertas foram todas escavadas. Tinha afinco, dedicação extrema para que eu, sozinho, abrisse a tumba da minha verdade e, dali, decidisse contar a versão desejada dos fatos. Nada era artificial. Nada era de mentirinha. Por sinal, os que arriscassem dizer tamanha atrocidade recebiam o meu descontentamento expresso.
Mentirinha para você que existe tão pouco. Eu sou bem maior do que o meu tamanho.
Eu sou uma baleia!
Lucas Galati
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O meu segundo livro de poesia está pronto. Uma obra que assumo ter muito orgulho e que o resultado final realmente ficou surpreendente. Mais uma vez, preciso agradecer a Editora Comala que aceitou encarar, ao meu lado, esse projeto tão especial e que soube captar todos os meus desejos, até aqueles que nem eu mesmo tinha tanta certeza.
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