#edição extra: CRÁPULAS!
Sobre a vila operária destombada na zona leste de São Paulo, o corretor se esforça em me corrigir, mas o termo não só existe como representa, na prática, uma passada larga até o púlpito que engrossa a voz do poder público em busca do galante futuro acionista e engravatado e a construção de um horizonte espelhado, asséptico e sem qualquer originalidade. Agora, mesmo com violentas adversidades, a vila resiste de pé.
Já na Vila Mariana, zona sul, o destino foi outro e terminou cadavérico, em montes mortos de cimento, fiação. Escombros. Uma vila de casas quase centenária veio abaixo e surpreendeu os moradores que se uniam num esforço de inverter o sentido explosivo da palavra e tombar os imóveis na bendita intenção de preservar parte da história do bairro. Para piorar o cenário, a demolição foi posta em prática, antes mesmo de acabar o prazo de recurso.
É só uma voz. A minha voz. Sem coral. Cadê o coral?
O trecho inicial de SHOW na voz sublime de Ná Ozzetti esbravejou silencioso pelo palco da cuca quando me vi responsável pela publicação da matéria sobre a demolição da vila dentro do meu jornal. Trabalhar todos os dias tendo São Paulo como musa inspiradora é falar bem mais de revoltas e impossibilidades do que de manifestas conquistas. Em primeiro lugar, a metrópole para o jornalismo diário é um terreno baldio, desprovido de qualidades, onde o crime se prolifera e avança insaciável e venenoso a cada alameda, debaixo de todo viaduto, no fundo de qualquer viela ou bueiro. O apresentador preguiçoso aposta e vocifera um: CULPA DESSES VAGABUNDOS! e, ao não receber nenhuma chamada de atenção, amadurece um bordão que pega e ainda incrementa a entoação com semblante dramático, exaurido pela falta de alternativas. A segurança é matéria genérica, nove letras que juntas dizem tão pouco, mas facilmente emplaca, esquenta o discurso raso, aumenta o Ibope e alimenta a revolta, assim como reforça um sádico individualismo — ufa, desta vez, não foi comigo.
A receita do bolo desanda só quando a arma decide sossegar no coldre e não espalhar vermelho vivo pelo chão de mais uma madrugada. Daí eu sinto o calibre da revolta. O jornalista também se vê pequeno frente às ineficiências do poder público. Ideias não me faltam. Sou um apaixonado por São Paulo e se reflito um tanto sobre a minha atual editoria, se aqueço o meu repertório, a minha lista de sugestões daria um bom caldo. Agora, os vinte anos me deixaram e sei como a máquina funciona. Sei como a notícia é mais valiosa, se maldita.
Somos crápulas. Um amigo esbravejou o adjetivo numa briga de trânsito e eu perdi parte do meu tempo rindo e outra parte voltando à adolescência, quando o SESC Pompéia, na zona oeste, se abria arquitetonicamente interessante para encabeçar uma complexa história de amor ou simplesmente anoitecer e eu colecionar as mais variadas pétalas floridas de cultura. Tive essa chance. E crápula, antes de palavra feita, se tornou a canção de Luiz Tatit na única voz possível, a de Ná Ozzetti.
Eu cresci te ouvindo, Ná. Devo nesta edição especial falar diretamente contigo. O cheiro de palco, o abraço-artista, a maquiagem discreta e os vestidos que eu também escolheria. As lágrimas que enxuguei apoiado nas tuas vitórias, mirar a tua mira em atingir em cheio os desiludidos e os seus corações gigantes, seus corações exaustos, entupidos de dor e fuligem. A voz se enraizava: canto encanto. Rumo. Manifesto explodido, entrega dada ao ofício.
A boca se abria em postura elegante e dali: Atlântidas. Afinar as flechas certeiras, se vestir das mesuras clássicas de uma deusa grega, convencer os rodopios dos pássaros dos pássaros: um Ultrapássaro. Ou uma poderosa mutante no seu, no meu quintal. Uma mutante in LOVE. In Love Lee Rita. Sempre Rita. Dentro e fora. Um estopim que estranhamente me autorizava, eu emprestava a coragem da sua Capitu e depois repetia mesma leitura. Até ela também ser minha. Sem fôlego. Sem fim. Sutil.
No camarim, o teu olhar me via azul e assim continuava, como se quisesse saber mais, como se, enfim, achasse um tesouro perdido. Eu, então, mentia alguma importância, erguia a cabeça, os meus balangandãs coloridos.
Agora, eu ouvia o coral! Novamente, o seu show.
Lucas Galati
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