Do que mais eu preciso
Sei que ao fim dos meus dias não terei sido um homem de fé, mas destemido. Inventei as primeiras batalhas com Deus com pouca idade. Um velho barbudo no trono talhado e de ouro, sob a nuvem mais alta, nunca foi imagem convincente e muito menos amigável para ajoelhar, comer bolas de terço e me fazer honestamente devoto. Não gosto de tapar os meus olhos, não gosto de abaixar a cabeça e na savana da humanidade precisei confiar bem mais nos meus caninos afiados e presas dilacerantes, em caso de atrito ou nervosa discordância.
Mais tarde, outros deuses viriam. Deuses benfazejos que até poderiam falar mais perto do meu dialeto, mas fé como sentimento poucas vezes senti. Agora que os quarenta já viram a esquina, proclamo a tomada consciente do trono. O meu Deus sou eu mesmo e caminho em paz com a bendita e particular convicção. Claro que a travessia nesses termos se faz bem mais solitária. Claro que o protagonismo impede a distribuição de culpas. Claro que prefiro bem mais me ferir do que me curar. Claro que claro é sempre bem mais escuro. Todavia, o estado de alerta reverbera numa poderosa sensação de pertencimento.
Como destemido, o pomposo adjetivo boia ensopado por um maremoto de privilégios. Sei que os tive, reconheço as ajudas, reflito constantemente sobre o meu ponto de partida, mas não posso ser injusto com a minha própria trajetória. Nada também veio fácil, nada foi manso e desistir está o tempo inteiro como opção em cima da mesa. No dia em que eu perdi o meu pai, eu inspirava lírios e dúvidas e expirava desespero quente. Nas horas de velório, eu repetia não ver mais as páginas seguintes, a ponta de uma possibilidade e a bancarrota que ele nunca quis encarar de frente ressoaria na família como um importante legado. Naquele 4 de janeiro, uma espécie de medo adquirido cravou a sua assinatura sobre a minha cara enlutada. Não mais me deixou. Pai deveria ser o abraço da estabilidade, de uma suposta segurança, o irrefutável clichê absorvido no ensino religioso da década de 1990 e se ver obrigado a aceitar uma despedida tão repentina forçou, em mesma pulsão, a saída aguada de tudo o que eu não mais teria.
A morte do meu pai trouxe um diálogo inédito com o tempo. Desde que ele se foi, a vida se fez bem mais veloz. Sinto-me constantemente esbaforido. Preciso de mais livros na estante, de mais grana no final do mês, de mais viagens no passaporte, preciso conhecer melhor o meu país, o nordeste, o norte, voltar para a academia, aceitar o gasto com massagens ou sessões de quiropraxia. Preciso voltar para a terapia, a trabalhar de dia, preciso de um apartamento maior, uma renda extra, falar espanhol, francês, uma nova viagem de intercâmbio. Preciso me fazer lido, preciso escrever ainda mais e melhor, preciso de praia, sauna, piscina, paisagens bonitas. Preciso entender que o que antes passava despercebido, hoje emociona picas, preciso do roxo da flor sadia. Preciso estar perto da minha mãe, saber de cor as suas manias, olhar no fundo do olho da minha avó, da minha madrinha, da minha tia. Preciso abrir um café, uma loja de tapetes, preciso fazer exame de sangue, cardíaco, preciso correr uma maratona, provar mais da minha comida favorita. Preciso reconhecer a chave que eu giro, os livros que me fizeram possível, preciso que a cidade inteira durma para eu escutar os curtos-circuitos do silêncio, preciso de tempestade, preciso falar bem mais de amor, entregar ramalhetes de flores, chocolates. Preciso mais da minha coragem e conversar de igual pra igual com os meus sonhos, os meus cenários. Preciso de todas as justificativas e de nenhuma. Preciso encarecidamente de atos de loucura.
Mesmo assim, precisando de tudo o que eu preciso. Preciso do tempo. Preciso, o tempo e tudo o que ele vai deixar obrigatoriamente para fora da minha lista imprecisa.
Lucas Galati
✨PS: Gostou do texto? Gosta do conteúdo dos os_andantes? Já pensou em ajudar essa iniciativa? Dê uma olhada nos planos pagos!
✍️ A newsletter dos Andantes tem o modelo gratuito e o modelo pago. É importante destacar que no modelo pago, você vai contar com textos mais complexos e aprofundados sobre um determinado tema, dicas interessantes das mais diferentes ordens e para todos os estilos. Porém, o que é ainda o mais valioso para o presente autor é o texto em si. Seja a poesia, a crítica, a crônica, o conto…
A principal preocupação será sempre com uma construção textual criativa e inesperada. Costumo enviar uma nova edição da newsletter de 5 em 5 dias. Não deixe de arriscar os seus primeiros passos!
❗SOPRO CLANDESTINO CHEGOU❗
O meu segundo livro de poesia está pronto. Uma obra que assumo ter muito orgulho e que o resultado final realmente ficou surpreendente. Mais uma vez, preciso agradecer a Editora Comala que aceitou encarar, ao meu lado, esse projeto tão especial e que soube captar todos os meus desejos, até aqueles que nem eu mesmo tinha tanta certeza.
Agradecer também aos amigos, familiares e seguidores que participaram da campanha de pré-venda e tornaram esse sonho possível.
Bom, sem mais delongas… é só clicar na imagem agora e comprar já o seu livro! Corre lá!
😜Ah! E só para lembrar que você pode adquirir o meu primeiro livro: VERDE, VERMELHO E CINZA. Basta dar um clique na imagem:
❗OUTRAS EDIÇÕES:
👀E se quiser me acompanhar nas redes virtuais:









Amei o texto!! Genial!!