Brasil brasileiro
Serviu como remédio. Curou fundo, de dentro pra fora. Curou mesmo. Pegou o meu dia mais odiado, sacou um diminutivo da cartola e estampou solar o nome de um projeto musical que virou joia nacional e que nem a conquista de Grammy latino pode resumir. Maior. Antes de qualquer princípio de revolta, eu só quis me colocar na narrativa e me apoiei nos ombros de uma ousadia momentânea. Uma linha de autor exibido. Quem nunca?
Dominguinho é Dominguinhos. Cristalino. Homenagem auspiciosa que não precisa de explicação e, antes que eu soubesse desistir dos riscos do meu exausto volume 1 descubro, pelo trinado no passeio de um pássaro virtual, a segunda edição pronta, com vídeo gravado no Pelourinho, em Salvador. Tomei até susto. Susto bom de ser tomado. Navego ainda na repetição do play na mesma intensidade que repito os capítulos da nova temporada de uma série aguardada. João Gomes é amor antigo e ainda me agarro na esperança de que um homem heterossexual pode ser decente. Não me decepciona, João. Mas vai bem além. João abre a boca e a gente acredita. A melhor verdade, a verdade mais potente, aquela que muda destino, nasce simples e pode brotar embrulhada de ingenuidade. João é brasileiro — conclusão concluída.
Jota.pê ganhou a minha playlist com Ouro Marrom e não parei mais. Veio Beija-flor, Tá Aê e o jeito bom de abraçar a novidade nunca é de uma vez. Aos poucos, com tempo de sobra e intenção. Poucos sabem, mas tenho no currículo dois anos de aulas de canto. Risos rubros de vergonha. Uma escola bacana até e, se eu pudesse escolher, queria ter vindo com o metálico e os graves de Jota.pê. Não vou repetir. Vai que um psicobilionário ouve e faz disso projeto para 2200? As pessoas com quatro pernas passando por cirurgias intrusivas para se tornarem novos astros da música. Já a sanfona de Mestrinho fez estreia ao lado de Mariana Aydar que gosto, mas não amo. Foi mesmo em Dominguinho que jurei o meu amor ao sergipano. Ele não sabe ainda ou se faz de difícil, assim como o instrumento que emana maestria.
Quando visitei o Chile, fui surpreendido em como eles valorizam a música nacional. Bem diferente daqui, as rádios mais populares do país priorizam as obras dos artistas chilenos. O nosso mainstream, o que mais toca no Brasil não fala português e se fala vem com graves problemas de dicção e repetições exaustivas de uma mesma palavra, mergulhada em batidas frenéticas ou introduzida em refrões grudentos. Lembro quando Marina Sena explodiu. O meu espanto inicial foi tamanho que celebrei aos pulos por reconhecer o poder dela de composição. Havia uma letra boa, havia conhecimento, era intrigante e até hoje sou um fã declarado, principalmente do seu último álbum - Coisas Naturais.
Dominguinho seguiu essa mesma pegada, um estouro B-R-A-S-I-L-E-I-R-O. Finalmente poder assistir a um estádio lotado aplaudir, se reconhecer e chorar emoção com o forró, com a música nordestina, com o bom gosto de um projeto 100% nacional, que precisava urgentemente acontecer. Urgentemente. Como jornalista e, portanto, consumidor ávido de notícias, não tinha mais estômago para reportagens sobre como Anitta chamou a atenção do mercado americano ou a quantidade de pseudo-cantores que ainda fazem estreias nas alturas e nunca sequer cantaram. Preferem apertar botões na costura de aberrações musicais que respondem exclusivamente ao capital.
Reconheço a minha utopia. Por vezes, até raiva sinto dela. Escrevo sobre a necessidade de valorizar o que é nacional num momento em que as boas rádios, as que justamente seguiam algum propósito editorial, que se davam ao trabalho de uma curadoria, que preferiam a canção, o Brasil, o português, estão deixando de existir. No entanto, em meio ao vazio do próximo pacote, na sombra da mesmice de um estouro seguinte, o horizonte surpreende e a mais falada de todas, a que se comunica em 5 línguas, a cantora que conquistou status de divindade, a nova Carmen Miranda, aquela que abriu os mares, venceu barreiras intransponíveis e se viu catapultada para o mundo decide, no auge da sua carreira, se voltar… ao Brasil.
Inesperadamente e contrariando as chances de múltiplos cifrões e ainda mais holofotes, Anitta reaparece com um álbum que não apenas fala português, como aborda o seu amor e devoção pelo Candomblé. Um projeto finalmente pensado com começo, meio e fim — algo que faltava na carreira de hits individualizados da cantora. Impulsionada pela genialidade e conselhos de Nídia Aranha, depois da parceria no show do Global Citizen, em Belém, a cantora ressurgiu com uma proposta deliciosamente oposta ao que ela vinha se dedicando nos últimos tempos. No cardápio, a parceria com artistas inusitados, bem distante dos que lhe eram habituais, nomes de peso como Liniker, Luedji Luna, Os Garotin. A construção pensada de letras fortes, uma caneta afiada e cheia de propósito permitiu que Anitta desabrochasse para uma nova perspectiva na sua já meteórica carreira musical.
Na entrevista nervosa e inexperiente feita pelo jornalista Hugo Gloss, a cantora se mostrou leviana, infantil e desatenta ao valor do seu novo trabalho. Certamente, Anitta sabe muito mais do que disse e, talvez, na tentativa de ainda atingir o seu antigo público e não causar tanto espanto preferiu não mergulhar nas profundezas de Equilibrium. Acho que deveria. O Brasil realmente precisa disso. O Brasil merece se aventurar nessa nova era, nessa nova faceta e babar com a beleza da linguagem, do universo que a cantora explorou numa construção brasileira e de qualidade cinematográfica.
Lucas Galati
✨PS: Gostou do texto? Gosta do conteúdo dos os_andantes? Já pensou em ajudar essa iniciativa? Dê uma olhada nos planos pagos!
✍️ A newsletter dos Andantes tem o modelo gratuito e o modelo pago. É importante destacar que no modelo pago, você vai contar com textos mais complexos e aprofundados sobre um determinado tema, dicas interessantes das mais diferentes ordens e para todos os estilos. Porém, o que é ainda o mais valioso para o presente autor é o texto em si. Seja a poesia, a crítica, a crônica, o conto…
A principal preocupação será sempre com uma construção textual criativa e inesperada. Costumo enviar uma nova edição da newsletter de 5 em 5 dias. Não deixe de arriscar os seus primeiros passos!
❗SOPRO CLANDESTINO CHEGOU❗
O meu segundo livro de poesia está pronto. Uma obra que assumo ter muito orgulho e que o resultado final realmente ficou surpreendente. Mais uma vez, preciso agradecer a Editora Comala que aceitou encarar, ao meu lado, esse projeto tão especial e que soube captar todos os meus desejos, até aqueles que nem eu mesmo tinha tanta certeza.
Agradecer também aos amigos, familiares e seguidores que participaram da campanha de pré-venda e tornaram esse sonho possível.
Bom, sem mais delongas… é só clicar na imagem agora e comprar já o seu livro! Corre lá!
😜Ah! E só para lembrar que você pode adquirir o meu primeiro livro: VERDE, VERMELHO E CINZA. Basta dar um clique na imagem:
❗OUTRAS EDIÇÕES:
👀E se quiser me acompanhar nas redes virtuais:









